< (...) Por que sou levada a escrever?
Porque a escrita me salva da
complacência que me amedronta. Porque
não tenho escolha. Porque devo manter
vivo o espírito de minha revolta e a mim
mesma também. Porque o mundo que crio
na escrita compensa o que o mundo real
não me dá. No escrever coloco ordem no
mundo, coloco nele uma alça para poder
segurá-lo. Escrevo porque a vida não
aplaca meus apetites e minha fome.
Escrevo para registrar o que os outros
apagam quando falo, para reescrever as
histórias mal escritas sobre mim, sobre você.
Para me tornar mais íntima comigo mesma
e consigo. Para me descobrir, preservar-me,
construir-me, alcançar autonomia. Para
desfazer os mitos de que sou uma profetisa
louca ou uma pobre alma sofredora. Para
me convencer de que tenho valor e que o
que tenho para dizer não é um monte de
merda. Para mostrar que eu posso e que
eu escreverei, sem me importar com as
advertências contrárias. Escreverei sobre o
não dito, sem me importar com o suspiro
de ultraje do censor e da audiência.
Finalmente, escrevo porque tenho medo
de escrever, mas tenho um medo maior
de não escrever. (...) | Falando em línguas: uma carta
para as mulheres escritoras do
terceiro mundo, GLORIA ANZALDÚA 21 de maio de 1980>
eu escrevo para permanecer. - dió, dezemro de16.
eu escrevo para permanecer. - dió, dezemro de16.